quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Missão da Igreja a luz do Reino de Deus - parte 1


Povão, ao ler este texto do missiológo R. Padilla sobre a “Missão da Igreja a luz do Reino de Deus” – achei relevante e conscientizador para o meu e o seu envolvimento na “missio Dei” nas cidades.
Estarei postando em três partes este texto. Então boa leitura e uma ótima reflexão!

MISSÃO DA IGREJA A LUZ DO REINO DE DEUS

Cada tentativa de definir a relação entre o Reino de Deus e a igreja, por um lado, e entre o reino de Deus e o mundo, por outro lado, será necessariamente incompleta. Falar do Reino de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a criação e da vocação histórica que a igreja tem com respeito a este propósito aqui e agora, “entre os tempos”. É também falar de uma realidade escatológica que constitui simultaneamente o ponto de partida e a meta da igreja. A missão da igreja, conseqüentemente, só pode ser entendida à luz do Reino de Deus.


1. A PRESENÇA DO REINO

A ênfase central do Novo Testamento é que Jesus veio para cumprir as profecias do Antigo Testamento e que em sua pessoa e obra o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente.
Um dos conceitos básicos da escatologia judaica no tempo de Jesus e seus apóstolos eram o das duas eras (eras e séculos), claramente expresso numa fórmula comum na literatura rabínica: “este século” e o “o século vindouro”.
O dualismo da escatologia judaica reflete o profundo pessimismo em que o povo resvalara sob o governo de imperadores pagãos no império pós-exílio. A voz de Deus havia se calado; o Reino messiânico prometido pelos profetas não tinha aparecido. Ao contrário os fiéis de Israel eram vítimas do ódio e da perseguição dos gentios. A partir dessa situação surgiu em Israel um conceito de história com um interesse exagerado no futuro e um persistente desprezo para com o presente. A história estava divorciada da escatologia. Mesmo que os judeus esperassem que Deus estabelecesse uma nova criação, pensavam que isso só aconteceria num futuro distante. O presente estava abandonado, sob o domínio do mal e do sofrimento.
Essa escatologia está em oposição à dos profetas do Antigo Testamento, para os quais o cumprimento dos propósitos de Deus na história era de suma importância.
Tal como George Eldon Ladd assinalou, “a mensagem profética se dirige ao povo de Israel numa situação histórica específica, e o presente e o futuro mantêm-se numa tensão escatológica”.

Ao longo do Novo Testamento a doutrina das duas eras é pressuposta, mas sua interpretação é feita à luz da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A premissa fundamental é que, na vida e obra de Cristo, Deus atuou definitivamente para cumprir seu propósito redentor. O ator principal apareceu e foi dado início ao drama escatológico da esperança judaica. A escatologia invadiu a história. O impacto daquela sobre esta produziu o que Oscar Cullmann denominou acertadamente “ a nova divisão do tempo”. (NOTA 3: Oscar CULLMANN, Christ and Time. Londres: SCM, 1962, p. 81ss. Há tradução castelhana:Cristo y el tiempo. Barcelona: Estela, 1968). Em contraste com o judaísmo, o Cristianismo do Novo Testamento sustenta que o ponto médio da linha do tempo não está no futuro, mas no passado: ele chegou em Jesus Cristo. A nova era (“o século vindouro”) da esperança judaica iniciou antecipadamente; aqui e agora é possível desfrutar as bênçãos do Reino de Deus.

Ainda que o ponto médio da linha do tempo tenha desaparecido, a consumação da nova era se realizará no futuro. O mesmo Deus que interveio na história para iniciar um drama está atuando ainda e continuará agindo a fim de levar o drama até sua conclusão. O Reino de Deus é portanto, uma realidade presente e ao mesmo tempo uma promessa que será cumprida no futuro: ele veio (e está presente entre nós) e virá (de modo que esperamos seu advento). A afirmação simultânea do presente e do futuro tem como resultado a tensão escatológica que permeia todo o Novo Testamento e representa, indubitavelmente, um redescobrimento da escatologia “profético-apocalíptica”, que o judaísmo tinha perdido.

As pesquisas mais recentes no campo da escatologia do Novo Testamento mostram que a tradição mais antiga do ensino de Jesus combina com a afirmação da vinda do Reino, como uma realidade presente, com a expectativa do cumprimento futuro do propósito redentor de Deus. No entanto a premissa básica da missão de Jesus e o tema central de sua pregação não é a esperança da vinda do Reino numa data previsível, mas o fato de que em sua própria pessoa e obra o Reino já tenha tornado presente com grande poder. Jesus afirma que ninguém sabe o dia nem a hora em que o drama escatológico chegará a sua conclusão, “nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mc 13:32). Mas afirma que o último ato do drama (“os últimos dias”) já começou com ele. O Reino tem a ver com o poder dinâmico de Deus por meio do qual “os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11:5). Tem a ver com o Espírito de Deus – o dedo de Deus – que expulsa demônios (Mt 12.28; Lc 11.20). Ele é visto na libertação dos poderes demoníacos (Lc 8.36), cegueira (Mc 10.46-52), hemorragia (Mc 5.34) e a própria morte (Mc 5.23). O reino das trevas que corresponde a “este século” foi invadido; o “homem forte” foi desarmado, conquistado e saqueado (Mt 12.29; Lc 11.22). Chegou a hora anunciada pelos profetas: O Ungido veio para dar boas novas aos pobres; sarar os quebrantados de coração, pregar a liberdade aos cativos e vista aos cegos, colocar em liberdade os oprimidos e pregar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19). Em outras palavras, a conexão com o Reino de Deus. Sua missão aqui e agora é a manifestação do Reino como uma realidade presente em sua própria pessoa e ação, em sua pregação do evangelho e em suas obras de justiça e misericórdia.

Em sintonia com isto, o Reino é o poder dinâmico de Deus, que se torna visível por meio de sinais concretos que mostram que Jesus é o Messias. É uma nova realidade que entrou no centro da história e que afeta a vida humana, não somente moral e espiritualmente, mas também física e psicologicamente, material e socialmente. Antecipando a consumação escatológica do final dos tempos, ele foi inaugurado na pessoa e obra de Cristo. Está ativo no meio do povo, ainda que possa ser percebido na perspectiva da fé (Lc 17.20-21). A consumação do propósito de Deus ser realizará no futuro, mas aqui e agora é possível vislumbrar a realidade presente do Reino.

À luz das manifestações visíveis do Reino de Deus, pode-se entender a proclamação do Reino por parte de Jesus. Seu anúncio: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15) não é uma mensagem verbal dada isoladamente dos sinais que o confirmam, é, antes, boa-nova acerca de algo que se pode ouvir e ver. Segundo as palavras de Jesus, (a) é uma notícia acerca de um fato histórico, um evento que se está realizando e que afeta a vida humana de muitas maneiras; (b) é uma notícia de interesse público, relacionada com toda a história humana; (c) é uma notícia relativa ao cumprimento das profecias do Antigo Testamento (o malekut Iahweh aunciado pelos profetas e celebrado por Israel tornou-se uma realidade presente); (d) é uma notícia que suscita arrependimento e fé; (e) é uma notícia que resulta na formação de uma nova comunidade, constituída por pessoas chamadas individualmente.

O sentido exato em que o Reino de Deus chegou, pode ser visto na história da obra de Jesus, que se desenvolve em seguida ao anúncio do Reino. Nele e por meio dele o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente.


2. O REINO E A IGREJA

O Novo Testamento apresenta a Igreja como a comunidade do Reino, a comunidade que reconhece a Jesus como Senhor do universo, por meio da qual, numa antecipação do fim, o Reino se manifesta concretamente na história.
Os termos Messias e comunidade messiânica são correlatos: se Jesus é o Messias, como afirmou ser, então não surpreende que, entre outras coisas, ele se tenha rodeado de uma comunidade que reconhecia a validade de sua afirmação. Basta uma análise superficial da evidência para concluir que de fato foi assim. Em seu ministério, ele convidou homens e mulheres a deixar tudo para segui-lo (Lc 9.57-62; 14-25-33; Mt 10.34-38). Aqueles que seguiram o seu chamado constituíram o “pequenino rebanho” ao qual o Pai deseja dar o Reino (Mt 26.31; Lc 12.32). Eles serão reconhecidos por Jesus na presença do Pai que está nos céus (Mt 10.32). São sua família, mais próximos a ele que seus próprios irmãos e mãe (Mt 12.50).

A referencia de Jesus a esta comunidade messiânica como “minha igreja” (Mt 16.18) se ajusta perfeitamente com um propósito de sua missão: sua intenção de rodear-se de uma comunidade própria, na qual as promessas do pacto de Deus com Israel estabelecerá uma igreja que seja caracteristicamente sua, sugere a relação entre a igreja e sua messianidade; somente depois que seus discípulos o tenham reconhecido como Messias, ele anuncia-lhes sua intenção. Ele é o Messias, em quem o Reino de Deus se tornou realidade presente. A igreja é a comunidade que surge como resultado de seu poder real. Sendo assim, é óbvio que a igreja não deve ser equiparada com o Reino.

Como diz Ladd:
Se o conceito dinâmico do Reino estiver correto, nunca deverá ser identificado com a igreja (...) Na terminologia bíblica, o Reino não se identifica com seus sujeitos. Estes são o povo de Deus que ingressa no Reino, vive sob seu mando e é governado por ele.A igreja é a comunidade do Reino, mas nunca o próprio Reino (...) O reino é o reinado de Deus, a igreja é uma sociedade de pessoas.

Segundo o propósito de Deus de Pentecostes o Reino de Deus continuaria como uma realidade presente por meio do dom do Espírito Santo. Isto está claro pelo fato de que, quando os discípulos de Jesus lhe perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel”, ele respondeu: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade;mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo (...)” (At 1.6-8). O Espírito Santo é, portanto, o agente da escatologia em processo de realização. O Reino de Deus que irrompeu na história em Jesus Cristo continua atuando por meio do Espírito Santo.

A Igreja é o resultado da ação de Deus por meio do Espírito. Ela é o corpo de Cristo e, como tal, a esfera na qual opera a vida da nova era iniciada por Jesus Cristo; o Espírito Santo é o agente por meio do qual esta vida é ortogada aos crentes (2 Co 2.4ss). Isto significa que a igreja não é primordialmente uma organização, mas um organismo cujos membros estão unidos pela ação do espírito. “Um corpo” correspondente a “um Espírito” (Ef 4.3-4).
Não se pode exagerar a importância desta relação entre o Espírito Santo e a igreja para a compreensão correta da relação entre o Reino de Deus e a Igreja. A Igreja depende do Espírito para sua própria existência. Suas palavras e ações são meramente o meio para manifestação presente do Reino de Deus, e não podem ser explicadas plenamente como palavras e ações humanas. O Reino de Deus não pertence exclusivamente ao futuro. Ele é também uma realidade presente, manifestada na comunidade cristã, que é “habilitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22). A Igreja não é o Reino de Deus, mas o resultado concreto do Reino. Ela leva as marcas de sua existência histórica, do “ainda não” que caracteriza o tempo presente.

Mas aqui e agora ela participa do “já” do Reino que Jesus iniciou.
Como a comunidade do Reino habilitada pelo Espírito Santo, a Igreja é claramente chamada a ser uma nova sociedade, uma terceira força junto com os judeus e gentios (1 Co 10.32). Ela não deve ser equiparada com o Reino, mas tampouco separada dele. Seu propósito é refletir os valores do Reino, aqui e agora, pelo poder do Espírito Santo. Não é ainda a “Igreja gloriosa”, mas sim “o Israel de Deus” (Gl 6.16), o povo de Deus chamado a confessar Jesus Cristo como Senhor e viver à luz desta confissão. Como Leslie Newbigin o expressa:

Somente a comunidade que começou a experimentar (ainda que seja apenas inicialmente) a realidade do Reino pode prover a hermenêutica da mensagem (...) Sem a hermenêutica desta comunidade vivente, a mensagem do Reino somente pode se converter numa ideologia e num programa: não será o evangelho.


PADILLA, René “A Missão da Igreja à Luz do Reino de Deus”, pág. 117 à 134. “A Serviço do Reino, Um Compêndio Sobre a Missão Integral da Igreja”, Editor STEUERNAGEL, Valdir, Editora Missão Mundial, Belo Horizonte, 1992, 312 páginas.

sábado, 20 de setembro de 2008

O que é um Missionário?


“Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” ( Atos 13:1-3).


A palavra “missionário” não é usada na Palavra de Deus. Mas este fato não significa que ela seja uma palavra anti bíblica ou não-bíblica. A palavra “trindade” não é usada na Bíblia também. Mas a doutrina da trindade é ensinada explicitamente (1 João 5:7). Um missionário é alguém que é enviado, particularmente alguém que é enviado numa missão. E isto é o que Lucas descreve em Atos 13:1-3. Paulo e Barnabé eram missionários da Igreja em Antioquia, enviados para pregar o evangelho aos gentios.

O termo preciso e bíblico para missionário é “evangelista”. Um evangelista é um arauto do evangelho, um pregador de boas novas. Mas ele não é um pastor ou presbítero. E ele certamente não é um pregador itinerante ou autônomo! Um evangelista é um missionário. Filipe, o evangelista, era um missionário (Atos 21:8). Todos os pastores fazem a obra de um evangelista (2 Timóteo 4:5), mas o nosso Senhor deu alguns à Sua igreja que foram chamados especificamente para serem evangelistas ou missionários (Efésios 4:11), os quais devem ser sustentados e mantidos em sua obra pelas igrejas.

O que é um missionário?

Primeiro, UM MISSIONÁRIO É UM HOMEM. Nenhuma mulher pode servir como um missionário, não mais do que uma mulher pode servir como um pastor! Deus não chamou mulheres para pregarem o evangelho, nunca! (1 Coríntios 14:35; 1 Timóteo 2:11-12). E ser uma esposa de missionário não faz de uma mulher uma missionária, não mais do que ser uma esposa de pastor faz de uma mulher uma pastora. Deus chama homens para fazer a Sua obra e dirige suas esposas para acompanhá-los. Segundo, UM MISSIONÁRIO É UM HOMEM COM A MENSAGEM DE DEUS. Missionários são pregadores. Se um homem não foi dotado por Deus para pregar o evangelho, não importa quão sincero ele seja, o mesmo não serve como um missionário. E a mensagem que ele prega é, e deve ser, o evangelho da livre e soberana graça de Deus em Cristo, o Substituto do pecador. Terceiro, UM MISSIONÁRIO É UM HOMEM COM A MISSÃO DE DEUS. Ele é um homem chamado e dotado por Deus para estabelecer igrejas, treinar pastores e ajudar para estabelecer aqueles pastores e igrejas no evangelho da graça de Deus, de forma que eles possam continuar a obra do evangelho para as gerações vindouras. “Médicos missionários”, “missionários ligados a questões educacionais”, “missionários ligados a questões culturais” e “missionários ligados a projetos de construção” não são missionários! Missionários são homens enviados ao mundo para pregar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, para reunir na colheita os eleitos de Deus espalhados pelo mundo.

Don Fortner