
Olá pessoal, tudo numa boa? Bom, esta aqui a segunda parte desse relevante texto do Padilla. Em breve estarei postando a última parte. Uma boa leitura e uma boa reflexão!
3. MISSÃO E BOAS NOVAS
Já que o Reino foi inaugurado por Jesus Cristo, não é possível entender corretamente a missão da igreja independentemente da missão de Jesus. È a manifestação, ainda que não completa,do Reino de Deus tanto por meio da proclamação como por meio da ação e do serviço social. O testemunho apostólico continua sendo o testemunho do espírito acerca de Jesus Cristo, por meio da Igreja. Deus que “colocou todas as coisas debaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23). Como comunidade do Reino, a Igreja confessa e proclama ao Senhor Jesus Cristo. Ela também realiza boas obras que Deus preparou de antemão para que as faça, para o que Deus a criou em Jesus Cristo (Ef 2.10). É verdade que “por meio dos escritos apostólicos, Jesus e os apóstolos continuam falando”; (NOTA 7. Arthur P. JOHNSTON. El Reino en relación a la iglesia y el mundo.Palestra apresentada na Consulta sobre a relação entre evangelização e responsabilidade social, realizada em Grand Rapids de 19 a 26 Junho de 1982, na p.28).é igualmente verdade que por meio da igreja e de suas boas obras o Reino de Deus se torna historicamente visível como uma realidade presente. As boas obras, portanto, não são um mero apêndice da missão, mas uma parte integral da manifestação presente do reino: elas apontam para o Reino no que já veio e para o Reino que está por vir.
Isto não significa, obviamente, que as boas obras – os sinais do Reino – necessariamente persuadirão os não-crentes acerca da verdade do evangelho. Mesmo as obras realizadas por Jesus foram por vezes rejeitadas. Suas palavras foram igualmente rejeitadas. Conseqüentemente, não devemos interpretar a missão cristã de tal modo que deixemos a impressão de que a proclamação verbal é “por si só persuasiva aos não-crentes”, enquanto os sinais -as boas obras –não o são. (NOTA 8. Arthur P. JOHNSTON. Op cit., p. 29; cf.p.44) Nem o ver nem o ouvir necessariamente produzem fé. Tanto a palavra como a ação apontam para o Reino de Deus, mas” (...) ninguém pode dizer: Senhor Jesus! Senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3).
4. O REINO DE DEUS E O MUNDO
Segundo o Novo Testamento, todo o mundo foi colocado sob o senhorio de Jesus Cristo. A esperança cristã se relaciona com a consumação do propósito de Deus de unir todas as coisas no céu e na terra sob o mando de Cristo como Senhor, e de libertar a humanidade do pecado e da morte em seu Reino.
O Cristo que a Igreja reconhece como Senhor é o Senhor de todo universo. Nesta afirmação de seu senhorio universal, a Igreja encontra a base para sua missão. Cristo foi coroado como Rei, e sua soberania se estende sobre a totalidade da criação. Como tal, ele comissiona os seus discípulos a fazerem discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20).
A igreja é a expressão do senhorio universal de Jesus Cristo, a manifestação concreta do Reino de Deus. Que Jesus é “Senhor de todos” significa não somente que ele seja soberano sobre a humanidade, mas que no tempo presente concede as bênçãos do Reino de Deus a todos os que invocam seu nome (Rm 10.12). “Que ele é o cabeça sobre todas as coisas” é importante porque como tal ele recebeu domínio sobre a Igreja, de modo que esta seja “ a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22). Como Senhor exaltado, cuja autoridade se estende por todo o universo, ele deu a seu povo dons para capacitá-lo para crescer como uma unidade orgânica, de modo que possa imitar o modelo da humanidade realizado perfeitamente em sua pessoa (Ef 4.10ss). Ele é o primogênito de toda a criação por causa do seu papel como sabedoria de Deus, e ao mesmo tempo é o primogênito da nova criação por causa de sua ressurreição (Cl 1.15,18). Ele é o “cabeça de todo principado e potestade” (Cl 2.10) e ao mesmo tempo “a cabeça do corpo, a igreja” (Cl 1.18; cf Ef 5.23), a cabeça da qual a igreja recebe sua vida (Cl 2.19). Pela morte de Cristo, Deus quis reconciliar consigo “todas as coisas” (Cl 1.20), e “no corpo da sua carne, mediante sua morte”, reconciliou os crentes a fim de apresentá-los “santos, inculpáveis e irrepreensíveis” perante ele (Cl 1.22). O fato de que ele esteja “à direita da Majestade nas alturas” não somente se relaciona com sua proeminência como o Rei mediador de toda a criação, mas aponta para seu ministério de intercessão em favor de seu povo (Hb 1.3,10,12; Rm 8.34).
Esta ênfase central do Novo Testamento nos leva à conclusão de que a Igreja, para ser compreendida corretamente, deve ser vista no contexto do propósito universal de Deus em Cristo Jesus. A intenção de Deus é “fazer convergir nele (...) todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10). O “segredo revelado” está sendo realizado já na Igreja, cuja confissão de Jesus Cristo antecipa o cumprimento do propósito de Deus de que “(...) ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10-11). Falar de Reino de Deus é falar de um evangelho universal – uma mensagem centrada no Filho que foi enviada pelo pai para ser o “Salvador do mundo” (1 Jo 4.14).
O fato de que o propósito de Deus inclua todo o mundo não significa que todos os homens e mulheres automaticamente pertençam ao Reino. O Reino de Deus é uma ordem escatológica à qual se deve entrar, e ninguém pode entrar nela sem reunir certas condições (Mt 5.20; 7.21; 18.3; 19.23; Mc 10.23ss). Conseqüentemente, a proclamação do Reino de Deus não é meramente a proclamação de um fato objetivo com respeito ao qual todos devem ser informados; é antes, simultaneamente a proclamação de um fato objetivo e um convite à fé.
No entanto, à luz do propósito universal de Deus não é possível entender a relação do mundo não é possível entender a relação do mundo com o Reino exclusivamente em termos da providencia de Deus. Com a vinda de Jesus Cristo, todo o mundo foi colocado sob o sinal da cruz e isso significa não somente juízo, mas também graça. Porque Cristo morreu e ressuscitou, o mundo já não pode ser visto meramente como a humanidade sob o juízo de Deus. Seu “ato de justiça” tem dimensões universais. Por que “assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça, a vida” (Rm 5.18). O evangelho continua sendo a proclamação de um evento que afeta a totalidade da vida humana.
Conseqüentemente, não basta dizer que Deus “providencialmente reina supremo e conduzirá toda a história ao cumprimento de seus propósitos em sua criação”, (NOTA 9. Arthur P. JOHNSTON. Op. cit., p.17) como se a obra de Cristo fosse totalmente irrelevante em relação à maneira com que Deus cumprirá seu propósito para a história. Cristo foi exaltado como Senhor. Ele deve exercer seu reinado –deve reinar- até que todos os seus inimigos, incluindo a morte, tenham sido colocados debaixo dos seus pés.
“Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.” (1 Co 15.28).
O Deus da redenção é também o criador e juiz de toda a humanidade que deseja a justiça e a reconciliação para todos. Seu propósito para a igreja, portanto, não pode ser separado de seu propósito para o mundo. A igreja só é corretamente entendida quando vista como sinal do Reino universal de Deus, os primeiros frutos da humanidade redimida. Aqui e agora,, em antecipação do fim, na igreja e por meio dela, todo o mundo é colocado sob o senhorio de Cristo, e portanto, sob a promessa de Deus de um novo céu e uma nova terra no Reino de Deus. Não se pode ler o Novo Testamento e tentar entender a Igreja à parte do propósito de Deus para a humanidade e para a história, do qual ela deriva seu significado. No entanto, a universalidade do evangelho não significa que todos participarão no Reino de Deus, mas que a Igreja proclamará o Reino a todos (cf. At 1.8;19.8; 28.23). A redenção da criação é inseparável da “revelação os filhos de Deus”; sua libertação é inseparável da “liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.19-21). Em outras palavras, na perspectiva do Novo Testamento, o significado cósmico da igreja. Esta não é uma seita composta por umas poucas almas resgatadas do tumultuoso mar da história, mas a minifestação cósmica da multiforme sabedoria de Deus, que criou todas as coisas (Ef 3.9-10), o “novo homem” em quem se reproduz a imagem do segundo Adão (Ef 2.15; 4.13; 1 Co 15.45), os primeiros frutos da nova humanidade (Tg 1.18).
Falar do Reino de Deus em relação ao mundo não é somente afirmar a providência de Deus, mas falar do Rei-Mediador Jesus Cristo, cujo Reino se faz visível (mesmo que ainda não em sua plenitude) na comunidade que confessa seu nome. È também confirmar que Deus tem um propósito para a história, o mesmo que provê sentido e direção à missão da Igreja aqui e agora. Deus está ativo para realizar o seu propósito para com a criação. A Igreja no poder do Espírito proclama a salvação em Cristo e planta sinais do Reino, entregando-se sempre inteiramente à obra do Senhor, sabendo que seu labor no Senhor não é em vão (1 Co 15.ç58).
PADILLA, René “A Missão da Igreja à Luz do Reino de Deus”, pág. 117 à 134. “A Serviço do Reino, Um Compêndio Sobre a Missão Integral da Igreja”, Editor STEUERNAGEL, Valdir, Editora Missão Mundial, Belo Horizonte, 1992, 312 páginas.