
Povão, ao ler este texto do missiológo R. Padilla sobre a “Missão da Igreja a luz do Reino de Deus” – achei relevante e conscientizador para o meu e o seu envolvimento na “missio Dei” nas cidades.
Estarei postando em três partes este texto. Então boa leitura e uma ótima reflexão!
MISSÃO DA IGREJA A LUZ DO REINO DE DEUS
Cada tentativa de definir a relação entre o Reino de Deus e a igreja, por um lado, e entre o reino de Deus e o mundo, por outro lado, será necessariamente incompleta. Falar do Reino de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a criação e da vocação histórica que a igreja tem com respeito a este propósito aqui e agora, “entre os tempos”. É também falar de uma realidade escatológica que constitui simultaneamente o ponto de partida e a meta da igreja. A missão da igreja, conseqüentemente, só pode ser entendida à luz do Reino de Deus.
1. A PRESENÇA DO REINO
A ênfase central do Novo Testamento é que Jesus veio para cumprir as profecias do Antigo Testamento e que em sua pessoa e obra o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente.
Um dos conceitos básicos da escatologia judaica no tempo de Jesus e seus apóstolos eram o das duas eras (eras e séculos), claramente expresso numa fórmula comum na literatura rabínica: “este século” e o “o século vindouro”.
O dualismo da escatologia judaica reflete o profundo pessimismo em que o povo resvalara sob o governo de imperadores pagãos no império pós-exílio. A voz de Deus havia se calado; o Reino messiânico prometido pelos profetas não tinha aparecido. Ao contrário os fiéis de Israel eram vítimas do ódio e da perseguição dos gentios. A partir dessa situação surgiu em Israel um conceito de história com um interesse exagerado no futuro e um persistente desprezo para com o presente. A história estava divorciada da escatologia. Mesmo que os judeus esperassem que Deus estabelecesse uma nova criação, pensavam que isso só aconteceria num futuro distante. O presente estava abandonado, sob o domínio do mal e do sofrimento.
Essa escatologia está em oposição à dos profetas do Antigo Testamento, para os quais o cumprimento dos propósitos de Deus na história era de suma importância.
Tal como George Eldon Ladd assinalou, “a mensagem profética se dirige ao povo de Israel numa situação histórica específica, e o presente e o futuro mantêm-se numa tensão escatológica”.
Ao longo do Novo Testamento a doutrina das duas eras é pressuposta, mas sua interpretação é feita à luz da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A premissa fundamental é que, na vida e obra de Cristo, Deus atuou definitivamente para cumprir seu propósito redentor. O ator principal apareceu e foi dado início ao drama escatológico da esperança judaica. A escatologia invadiu a história. O impacto daquela sobre esta produziu o que Oscar Cullmann denominou acertadamente “ a nova divisão do tempo”. (NOTA 3: Oscar CULLMANN, Christ and Time. Londres: SCM, 1962, p. 81ss. Há tradução castelhana:Cristo y el tiempo. Barcelona: Estela, 1968). Em contraste com o judaísmo, o Cristianismo do Novo Testamento sustenta que o ponto médio da linha do tempo não está no futuro, mas no passado: ele chegou em Jesus Cristo. A nova era (“o século vindouro”) da esperança judaica iniciou antecipadamente; aqui e agora é possível desfrutar as bênçãos do Reino de Deus.
Ainda que o ponto médio da linha do tempo tenha desaparecido, a consumação da nova era se realizará no futuro. O mesmo Deus que interveio na história para iniciar um drama está atuando ainda e continuará agindo a fim de levar o drama até sua conclusão. O Reino de Deus é portanto, uma realidade presente e ao mesmo tempo uma promessa que será cumprida no futuro: ele veio (e está presente entre nós) e virá (de modo que esperamos seu advento). A afirmação simultânea do presente e do futuro tem como resultado a tensão escatológica que permeia todo o Novo Testamento e representa, indubitavelmente, um redescobrimento da escatologia “profético-apocalíptica”, que o judaísmo tinha perdido.
As pesquisas mais recentes no campo da escatologia do Novo Testamento mostram que a tradição mais antiga do ensino de Jesus combina com a afirmação da vinda do Reino, como uma realidade presente, com a expectativa do cumprimento futuro do propósito redentor de Deus. No entanto a premissa básica da missão de Jesus e o tema central de sua pregação não é a esperança da vinda do Reino numa data previsível, mas o fato de que em sua própria pessoa e obra o Reino já tenha tornado presente com grande poder. Jesus afirma que ninguém sabe o dia nem a hora em que o drama escatológico chegará a sua conclusão, “nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mc 13:32). Mas afirma que o último ato do drama (“os últimos dias”) já começou com ele. O Reino tem a ver com o poder dinâmico de Deus por meio do qual “os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11:5). Tem a ver com o Espírito de Deus – o dedo de Deus – que expulsa demônios (Mt 12.28; Lc 11.20). Ele é visto na libertação dos poderes demoníacos (Lc 8.36), cegueira (Mc 10.46-52), hemorragia (Mc 5.34) e a própria morte (Mc 5.23). O reino das trevas que corresponde a “este século” foi invadido; o “homem forte” foi desarmado, conquistado e saqueado (Mt 12.29; Lc 11.22). Chegou a hora anunciada pelos profetas: O Ungido veio para dar boas novas aos pobres; sarar os quebrantados de coração, pregar a liberdade aos cativos e vista aos cegos, colocar em liberdade os oprimidos e pregar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19). Em outras palavras, a conexão com o Reino de Deus. Sua missão aqui e agora é a manifestação do Reino como uma realidade presente em sua própria pessoa e ação, em sua pregação do evangelho e em suas obras de justiça e misericórdia.
Em sintonia com isto, o Reino é o poder dinâmico de Deus, que se torna visível por meio de sinais concretos que mostram que Jesus é o Messias. É uma nova realidade que entrou no centro da história e que afeta a vida humana, não somente moral e espiritualmente, mas também física e psicologicamente, material e socialmente. Antecipando a consumação escatológica do final dos tempos, ele foi inaugurado na pessoa e obra de Cristo. Está ativo no meio do povo, ainda que possa ser percebido na perspectiva da fé (Lc 17.20-21). A consumação do propósito de Deus ser realizará no futuro, mas aqui e agora é possível vislumbrar a realidade presente do Reino.
À luz das manifestações visíveis do Reino de Deus, pode-se entender a proclamação do Reino por parte de Jesus. Seu anúncio: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15) não é uma mensagem verbal dada isoladamente dos sinais que o confirmam, é, antes, boa-nova acerca de algo que se pode ouvir e ver. Segundo as palavras de Jesus, (a) é uma notícia acerca de um fato histórico, um evento que se está realizando e que afeta a vida humana de muitas maneiras; (b) é uma notícia de interesse público, relacionada com toda a história humana; (c) é uma notícia relativa ao cumprimento das profecias do Antigo Testamento (o malekut Iahweh aunciado pelos profetas e celebrado por Israel tornou-se uma realidade presente); (d) é uma notícia que suscita arrependimento e fé; (e) é uma notícia que resulta na formação de uma nova comunidade, constituída por pessoas chamadas individualmente.
O sentido exato em que o Reino de Deus chegou, pode ser visto na história da obra de Jesus, que se desenvolve em seguida ao anúncio do Reino. Nele e por meio dele o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente.
2. O REINO E A IGREJA
O Novo Testamento apresenta a Igreja como a comunidade do Reino, a comunidade que reconhece a Jesus como Senhor do universo, por meio da qual, numa antecipação do fim, o Reino se manifesta concretamente na história.
Os termos Messias e comunidade messiânica são correlatos: se Jesus é o Messias, como afirmou ser, então não surpreende que, entre outras coisas, ele se tenha rodeado de uma comunidade que reconhecia a validade de sua afirmação. Basta uma análise superficial da evidência para concluir que de fato foi assim. Em seu ministério, ele convidou homens e mulheres a deixar tudo para segui-lo (Lc 9.57-62; 14-25-33; Mt 10.34-38). Aqueles que seguiram o seu chamado constituíram o “pequenino rebanho” ao qual o Pai deseja dar o Reino (Mt 26.31; Lc 12.32). Eles serão reconhecidos por Jesus na presença do Pai que está nos céus (Mt 10.32). São sua família, mais próximos a ele que seus próprios irmãos e mãe (Mt 12.50).
A referencia de Jesus a esta comunidade messiânica como “minha igreja” (Mt 16.18) se ajusta perfeitamente com um propósito de sua missão: sua intenção de rodear-se de uma comunidade própria, na qual as promessas do pacto de Deus com Israel estabelecerá uma igreja que seja caracteristicamente sua, sugere a relação entre a igreja e sua messianidade; somente depois que seus discípulos o tenham reconhecido como Messias, ele anuncia-lhes sua intenção. Ele é o Messias, em quem o Reino de Deus se tornou realidade presente. A igreja é a comunidade que surge como resultado de seu poder real. Sendo assim, é óbvio que a igreja não deve ser equiparada com o Reino.
Como diz Ladd:
Se o conceito dinâmico do Reino estiver correto, nunca deverá ser identificado com a igreja (...) Na terminologia bíblica, o Reino não se identifica com seus sujeitos. Estes são o povo de Deus que ingressa no Reino, vive sob seu mando e é governado por ele.A igreja é a comunidade do Reino, mas nunca o próprio Reino (...) O reino é o reinado de Deus, a igreja é uma sociedade de pessoas.
Segundo o propósito de Deus de Pentecostes o Reino de Deus continuaria como uma realidade presente por meio do dom do Espírito Santo. Isto está claro pelo fato de que, quando os discípulos de Jesus lhe perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel”, ele respondeu: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade;mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo (...)” (At 1.6-8). O Espírito Santo é, portanto, o agente da escatologia em processo de realização. O Reino de Deus que irrompeu na história em Jesus Cristo continua atuando por meio do Espírito Santo.
A Igreja é o resultado da ação de Deus por meio do Espírito. Ela é o corpo de Cristo e, como tal, a esfera na qual opera a vida da nova era iniciada por Jesus Cristo; o Espírito Santo é o agente por meio do qual esta vida é ortogada aos crentes (2 Co 2.4ss). Isto significa que a igreja não é primordialmente uma organização, mas um organismo cujos membros estão unidos pela ação do espírito. “Um corpo” correspondente a “um Espírito” (Ef 4.3-4).
Não se pode exagerar a importância desta relação entre o Espírito Santo e a igreja para a compreensão correta da relação entre o Reino de Deus e a Igreja. A Igreja depende do Espírito para sua própria existência. Suas palavras e ações são meramente o meio para manifestação presente do Reino de Deus, e não podem ser explicadas plenamente como palavras e ações humanas. O Reino de Deus não pertence exclusivamente ao futuro. Ele é também uma realidade presente, manifestada na comunidade cristã, que é “habilitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22). A Igreja não é o Reino de Deus, mas o resultado concreto do Reino. Ela leva as marcas de sua existência histórica, do “ainda não” que caracteriza o tempo presente.
Mas aqui e agora ela participa do “já” do Reino que Jesus iniciou.
Como a comunidade do Reino habilitada pelo Espírito Santo, a Igreja é claramente chamada a ser uma nova sociedade, uma terceira força junto com os judeus e gentios (1 Co 10.32). Ela não deve ser equiparada com o Reino, mas tampouco separada dele. Seu propósito é refletir os valores do Reino, aqui e agora, pelo poder do Espírito Santo. Não é ainda a “Igreja gloriosa”, mas sim “o Israel de Deus” (Gl 6.16), o povo de Deus chamado a confessar Jesus Cristo como Senhor e viver à luz desta confissão. Como Leslie Newbigin o expressa:
Somente a comunidade que começou a experimentar (ainda que seja apenas inicialmente) a realidade do Reino pode prover a hermenêutica da mensagem (...) Sem a hermenêutica desta comunidade vivente, a mensagem do Reino somente pode se converter numa ideologia e num programa: não será o evangelho.
PADILLA, René “A Missão da Igreja à Luz do Reino de Deus”, pág. 117 à 134. “A Serviço do Reino, Um Compêndio Sobre a Missão Integral da Igreja”, Editor STEUERNAGEL, Valdir, Editora Missão Mundial, Belo Horizonte, 1992, 312 páginas.